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A EVOLUÇÃO DA QUALIDADE RUMO À SUSTENTABILIDADE: A TRANSIÇÃO ISO 9001:2015–2026 NO MARCO Q+ESG

Texto do artigo

A qualidade atravessa um ponto de inflexão. Em um contexto em que a sustentabilidade, a ética e a transparência se tornaram indicadores de sucesso empresarial, o sistema de gestão mais reconhecido do mundo se atualiza. A norma ISO 9001, que em 2015 deu um salto em direção à compreensão do contexto e dos riscos, agora caminha para integrar a sustentabilidade como elemento estrutural. Sua próxima versão, prevista para 2026, consolida uma tendência inegável: a convergência entre Quality (Q) e os critérios Environmental, Social & Governance (ESG). A qualidade já não se mede apenas pela conformidade dos produtos, mas pela capacidade das organizações de gerar valor sustentável.

Desde sua publicação, a ISO 9000:2015 deixou claro que um sistema de gestão da qualidade serve para dirigir e controlar uma organização em relação à qualidade, considerando seu contexto, as partes interessadas e os resultados esperados. Esse enfoque foi a base da ISO 9001:2015, que introduziu a compreensão do ambiente e o pensamento baseado em risco. Quase uma década depois, o rascunho ISO/DIS 9001:2025 amplia essa visão: reconhece que o sucesso sustentado depende da resiliência e da capacidade de antecipar mudanças tecnológicas, ambientais e sociais. Nas palavras do documento de trabalho, a norma deve facilitar “a sustentabilidade do desempenho em ambientes dinâmicos e complexos”. Não é um matiz semântico, é uma mudança filosófica: da eficiência ao propósito.

A ISO 9001:2026 poderá incorporar referências cruzadas a normas complementares. A ISO 10010:2022, sobre cultura da qualidade, destaca que valores compartilhados e liderança ética são essenciais para um desempenho duradouro. A ISO 30401:2018, sobre gestão do conhecimento, reforça a ideia de que aprender e compartilhar saber é um ativo estratégico, e a ISO 31000:2018 lembra que o risco não se elimina, mas se gerencia com decisão informada. Esse ecossistema normativo projeta um modelo organizacional em que qualidade, cultura, conhecimento e sustentabilidade se retroalimentam.

A revisão não modifica a estrutura de alto nível — cláusulas 4 a 10 —, mas redefine sua interpretação.

Compreender o contexto (4.1) implicará reconhecer pressões ambientais e expectativas de sustentabilidade. Liderar (5.1) significará alinhar os valores da equipe à responsabilidade social. Planejar (6.1) exigirá vincular riscos e oportunidades a metas sustentáveis. E avaliar (9.1) requererá medir o impacto real das decisões na comunidade e no meio ambiente. Em outras palavras, a qualidade deixa de controlar processos para sustentar um propósito organizacional.

A América Latina observa esse movimento com atenção. Segundo o ISO Survey 2023, a região representa aproximadamente 5% das 1.249.317 certificações ISO 9001 ativas no mundo. O Brasil lidera com 17.570 certificações, seguido pela Colômbia (9.471), México (7.982) e Chile (2.612). Esses números mostram uma base sólida para uma transição rumo a sistemas integrados de qualidade e sustentabilidade. Mas também revelam uma lacuna: a maioria das certificações está concentrada em grandes empresas, enquanto as PME ainda percebem a gestão da qualidade como uma exigência documental, e não como uma ferramenta estratégica.

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID, 2023) indica que as indústrias manufatureiras que incorporam sistemas de gestão da qualidade junto a programas de eficiência energética reduzem seus custos de produção entre 10% e 20%, além de melhorarem seu acesso a mercados com exigências ambientais. Casos como Embraer, no Brasil, e Cementos Argos, na Colômbia, demonstram que integrar ISO 9001 e ISO 14001 não apenas melhora processos, mas também reputação e desempenho ESG. O desafio regional está em transferir essas práticas para o amplo universo das pequenas e médias empresas.

No campo da educação superior, a ISO 9001 evoluiu para a ISO 21001:2018, que adapta os princípios da qualidade à gestão educacional. O INLAC (2024) destaca que universidades do Chile, Colômbia e Bolívia começaram a aplicar modelos integrados de qualidade e sustentabilidade institucional. O novo enfoque de 2026, que reforça a gestão do conhecimento e a participação das partes interessadas, coincide com a transformação educacional que exige inclusão, inovação e transparência. Uma universidade sustentável não mede apenas seus resultados acadêmicos: avalia seu impacto social e ambiental com o mesmo rigor com que avalia seus indicadores de qualidade.

O turismo latino-americano também reflete essa convergência. Segundo a Organização Mundial do Turismo (OMT, 2024), os destinos da região que implementaram sistemas baseados nas normas ISO 9001 e 14001 aumentaram em até 15% a satisfação dos visitantes e reduziram em 22% o consumo de água por hóspede. A Costa Rica, pioneira em certificação turística sustentável, e o Peru, com sua estratégia de neutralidade de carbono 2030, demonstram que a qualidade pode se tornar uma ferramenta de conservação e competitividade. Nesse setor, a ISO 9001:2026 permitirá que os indicadores de sustentabilidade sejam formalmente integrados ao sistema de gestão, fortalecendo a rastreabilidade e a confiança do visitante.

Mas os benefícios não se alcançam automaticamente. A CEPAL (2024) alerta que menos de 30% das PME exportadoras da região possuem pessoal com alguma formação ou conhecimento em gestão da qualidade e sustentabilidade. A falta de capacidades técnicas é o principal obstáculo para que os sistemas ISO se traduzam em resultados sociais e ambientais. Soma-se a isso o custo de implementação: para uma PME, a certificação pode representar entre 0,5% e 1% de seu faturamento anual. Nesse ponto, a cooperação regional é essencial. A COPANT (2024) promove um programa ibero-americano para desenvolver guias de integração Q+ESG que simplifiquem a certificação em pequenas organizações.

O outro desafio é cultural. A ISO 10010:2022 define a cultura da qualidade como o conjunto de valores e comportamentos que permitem que as pessoas compreendam como seu trabalho contribui para o propósito da organização. A futura ISO 9001 incorpora esse princípio ao exigir liderança ética e coerência. Em um contexto no qual a reputação pesa tanto quanto a produtividade, construir uma cultura de qualidade sustentável é investir em legitimidade. Não se trata apenas de cumprir requisitos, mas de gerar confiança: no cliente, na comunidade e na própria equipe.

O marco Q+ESG não substitui a ISO 9001, ele a amplia. Permite que os dados do sistema de gestão — reclamações, auditorias, indicadores de melhoria — sejam conectados com os indicadores ESG globais exigidos pelos mercados e investidores. Assim, a organização pode demonstrar que seu desempenho sustentável não é discurso, mas um processo mensurável e verificável. Na América Latina, onde cresce a pressão para atender padrões internacionais, essa conexão pode abrir acesso a créditos verdes, cadeias de suprimentos responsáveis e programas de cooperação técnica.

A transição para a ISO 9001:2026 coincide com um momento de redefinição econômica. A Agenda 2030 da ONU (2023) convoca a promoção de trabalho decente, indústria inovadora e consumo responsável. A nova norma oferece a infraestrutura para transformar esses objetivos em gestão cotidiana. Planejar e medir deixarão de ser tarefas burocráticas para se tornarem atos de responsabilidade social. Cada objetivo de qualidade poderá ser alinhado a um ODS; cada revisão pela direção poderá avaliar impactos éticos e ambientais.

O caminho não será rápido. Muitos países ainda carecem de políticas de qualidade articuladas com suas estratégias de sustentabilidade. No entanto, o avanço é visível. Brasil, México, Chile e Colômbia fortaleceram seus institutos nacionais de normalização (INMETRO, DGN, INN, ICONTEC) e participam ativamente da COPANT para harmonizar critérios de certificação e reduzir duplicidades. A Bolívia, por meio do IBNORCA, promove a adoção do enfoque Q + ESG em sua rede de empresas certificadas. Esses esforços apontam para que a região fale um mesmo idioma em gestão e sustentabilidade.

Ao observar essa evolução, torna-se evidente que a qualidade já não pode se limitar à satisfação do cliente. O cliente é a sociedade. O produto é a confiança. E o resultado esperado é um futuro possível. A ISO 9001:2026 não muda a essência da qualidade — ela a devolve ao seu sentido original: melhorar a vida das pessoas por meio de organizações responsáveis.

Transcrição do artigo publicado na edição impressa. A versão diagramada está disponível no visualizador acima.

Latin American Quality Institute

LAQI es autor de la redacción y publicación de los artículos en la Quality Magazine. Más información en laqi.org

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