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PERCEPÇÕES DA PRIMEIRA SEMANA DA COP30

Texto do artigo

Este é meu primeiro artigo publicado desse gênero, e o contexto não poderia ser mais especial: escrevo no dia 14/11/2025, em uma rede, dentro de um barco atracado na Estação das Docas, Belém, atual capital do Brasil, durante a COP30.

A jornada começou dia 4, em Manaus, de onde saímos rumo a Belém, só chegando dia 7. Na travessia, tivemos diversas atividades aproveitando a potência das pessoas que também embarcaram: pessoas indígenas, lideranças comunitárias de diversas unidades de conservação e de diversas regiões da Amazônia brasileira, especialmente do Amazonas, que, por si só, já é gigante. O barco é o Banzeiro da Esperança, iniciativa da Fundação Amazônia Sustentável e Virada Sustentável, e eu estou tendo o privilégio de vir como delegação do grupo de voluntariado ao qual faço parte, Global Shapers Manaus. Também levo por onde vou a Oca Amazônia, instituto do qual sou Diretora Executiva e onde tenho um time maravilhoso que trabalha por justiça climática pelo Bem Viver em cidades e comunidades na Amazônia.

Hoje, dia 14, é uma sexta-feira, e é o fim da primeira semana da COP. Para mim, e para muitas pessoas, já é uma COP histórica. O Brasil, quando se candidatou a receber novamente um evento sobre clima em seu território, resgatou o histórico positivo que a diplomacia brasileira tem em conseguir acordos. Em um momento em que estamos vendo as médias de temperatura realmente passarem o aumento de 1,5°C, poder contar com o jeitinho e a malemolência brasileiros para tentar facilitar o fechamento de acordos internacionais foi uma fagulha de esperança para o mundo todo.

Para quem não tem de cabeça o que é esse protagonismo do Brasil, explico: a Rio 92, oficialmente chamada de Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, foi um marco histórico que redefiniu a governança ambiental global. Realizada no Rio de Janeiro em 1992, reuniu chefes de Estado, organizações internacionais e sociedade civil para enfrentar, de forma inédita, os desafios do desenvolvimento sustentável. Dela nasceram três convenções que moldam a agenda ambiental até hoje: a Convenção do Clima (UNFCCC), a Convenção da Biodiversidade (CBD) e a Convenção de Combate à Desertificação (UNCCD). A A conferência também consolidou o conceito de desenvolvimento sustentável e lançou a Agenda 21, um extenso plano de ação para orientar países, cidades e comunidades na adoção de práticas sustentáveis em áreas como gestão de recursos naturais, inclusão social, educação ambiental e planejamento urbano. A Rio 92 ainda fortaleceu a participação de povos indígenas e comunidades tradicionais nas discussões internacionais e reforçou a imagem do Brasil como liderança diplomática capaz de articular consensos em temas ambientais complexos.

A candidatura do Brasil para a COP30 não apenas resgatou esse histórico, mas também subiu a régua: seria em Belém, na Amazônia. O mundo inteiro discutindo clima em uma região estratégica para regular todo o planeta. Marina Silva, ministra do Meio Ambiente e referência mundial em clima, porém, tem sido clara em seus discursos: esta não é a COP da Amazônia, é uma COP na Amazônia. Se for uma COP da Amazônia, parece que apenas a Amazônia terá sua responsabilidade em controlar o clima, mas se for uma COP na Amazônia, estamos apenas sendo anfitriões de todo o mundo para, juntos, discutirmos e decidirmos sobre clima. O protagonismo brasileiro e da Amazônia tem que ser um facilitador de todo o processo.

Eu, como amazônida e pessoa que trabalha em diversas comunidades tradicionais ribeirinhas e indígenas, percebo claramente o impacto dessa decisão em nossa região. Todos estamos falando de clima. O assunto chegou até as comunidades. As secas históricas de 2023 e 2024, as crises de fumaça Além, é claro, de sermos o país mais biodiverso do mundo, que tutela a maior parte da maior floresta do mundo, a Floresta Amazônica, também somos um dos países com matriz energética menos emissora, que são as hidroelétricas (apesar de não podermos deixar de citar os impactos sociais que essa solução teve em vários povos).

devido ao desmatamento, o calor extremo batendo recordes, para nós, foram sentidos na pele. E, devido à COP ser em nossa região, pudemos entender e conectar todos esses impactos com o tema de mudança do clima. Os meses de setembro de 2023 e 2024 foram de extrema ecoansiedade para mim. Sempre vimos documentários ou reportagens na TV sobre esse futuro distópico, quando tudo estivesse mudado e o mundo inóspito e irreconhecível. Pois parecia que esse futuro tinha chegado. E chegou mesmo. As mudanças climáticas não são mais para o futuro, elas já estão acontecendo e quem sente mais são as populações mais vulnerabilizadas. Preciso destacar: populações vulnerabilizadas, não vulneráveis. Elas têm todas as suas capacidades, não são vulneráveis, mas, sim, passam por um processo de todo o nosso sistema capitalista que as torna vulnerabilizadas. Povos da floresta e periferias sofrem muito mais com a mudança do clima pois sofrem com a falta de infraestrutura, falta de conectividade, falta de diversos acessos. Viver em um planeta com calor extremo em uma favela é diferente de estar em um planeta com calor extremo podendo gastar energia para resfriar sua mansão. E, se você parar bem para pensar, não é a pessoa que mora na favela, que usa transporte público, gasta pouca energia — se for brasileira, ainda é uma energia de hidroelétrica, provavelmente —, tem hábitos de consumo relativamente baixos, come nosso feijão com arroz; não é essa pessoa que emite tanto gás de efeito estufa a ponto de mudar o clima do planeta. Não é o indígena que mora em sua Terra Indígena desde que nasceu e a mantém quase totalmente preservada, sendo o tipo de unidade de conservação que mais preserva a floresta. Não é o ribeirinho que vive em uma reserva florestal. Mas são eles que mais vão, e já estão, sofrendo com os impactos das mudanças climáticas. O nome disso é injustiça climática. Quem contribui mais para o aquecimento global não é quem mais vai sofrer com as consequências.

É por isso que estamos vendo toda essa mobilização das populações tradicionais vindo a Belém. Sempre foi nós por nós. As últimas COPs aconteceram em países de regimes políticos totalitários; quase não se viram manifestações que pudessem pressionar por maior ambição nas ações climáticas. O Brasil faz o contrário: nos convoca. Que orgulho de ser brasileira e amazônida. Está lindo andar pelas zonas e ver os parentes presentes, em um lembrete de: estamos aqui. Encontrar pessoas do país todo em nossa região. O barco em que eu vim mesmo foi uma caravana de mais de 200 pessoas, de diversas regiões da Amazônia, que sentiram que deveriam estar aqui. A maioria sem credencial, mas que quis se fazer presente, pois isso importa, sim. Viemos na viagem construindo Planos de Adaptação Climática e escrevendo nossos projetos. Saíram mais de 50 planos. São mais de 20 dias disponibilizados para estar aqui. Os movimentos sociais brasileiros são fortíssimos e estão mobilizados e reverberando. Estão mais ainda: se encontrando, se enxergando, se reconhecendo. Temos sérios problemas de viver em nossas bolhas, ainda mais na Amazônia, em que as distâncias são grandes, mas ver as lideranças se conhecendo, se identificando, trocando, se articulando — isso já tem um poder que com certeza é um legado. Destaco, dentre tantos, a marcha conduzida pelo Conselho Nacional de Populações Extrativistas (CNS), chamada Porangaço. Cada um com uma poronga acesa na cabeça, ferramenta de trabalho que os seringueiros usavam para iluminar os caminhos dentro da mata para coletar o látex, quando bioeconomia ainda nem estava na moda; já era a nossa mãe floresta que movimentava por aqui. Eu mesma, meu avô foi seringueiro e eu nunca havia tocado em uma poronga. Amanhã, dia 15, acontecerá outra marcha, e essa promete ser ainda mais histórica: Marcha Global pelo Clima. Temos o espaço da Cúpula dos Povos e a Aldeia COP30, que estão lindíssimos; a instalação do Comitê Chico Mendes; dezenas, talvez centenas de casas por Belém com suas ações; vejo classes de trabalho também descobrindo seu papel na mudança do clima, como é o caso da minha profissão, com o Conselho de Arquitetura e Urbanismo fazendo bonito em um pavilhão na Zona Verde. Mesmo com tanta xenofobia que nossa região enfrentou, a COP está linda, e nas decisões técnicas da Blue Zone ela também está indo muito bem.

Com todo o respeito, mas se essa COP fosse no Rio de Janeiro, por exemplo, tenho minhas sérias dúvidas se essa mobilização estaria tão enraizada em nossos territórios. A mensagem é clara: estamos de olho nas decisões tomadas lá nas mesas de negociações.

Transcrição do artigo publicado na edição impressa. A versão diagramada está disponível no visualizador acima.

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